Osvaldo de Sousa na introdução do seu livro Crónicas D'um Stuart, editado pelas Publicações Dom Quixote, apresenta um conjunto de depoimentos sobre o artista, saídos em vários jornais e revista, nos quais se faz uma caracterização da personalidade de Stuart Carvalhais como homem e como artista. São testemunhos daqueles que com ele conviveram e conheceram a sua genialidade e as suas fraquezas.

«Stuart caricatura, desenha, pinta, faz bonecos de graça ingénua e grimaces de impureza trágica, vai do bucólico à charge, da policromia gritante e matinal ao escuro e claro escuro dos becos e almas sem saída...» (Joaquim Manso, in Sempre Fixe, 23/6/1927)

«O caricaturista inexcedível dos tipos da rua. Carradas de talento e de areia. /.../ Divisa: Ó copos hic labor est.» (Francisco Valença, in Sempre Fixe, 23/6/1927)

«Não conheço, nem há em Portugal, e dificilmente se encontra lá fora, nos países da arte e dos estímulos, desenhador mais espontâneo e temperamento mais bizarro. /.../

Nenhum traço mais delicado, bravio e inconscientemente nobre.

Há nos desenhos de Stuart — nos seus grandes desenhos, dignos de galeria de museu, e de que os Museus desdenham, talvez por humildade — tudo o que faria um artista de raça eleita. A fidelidade, a ternura, a graça caricatural sem exagero, ora a delicadeza, ora a desgraça, ora o vício, ora a imaculada frescura dos petizes — o talho esbelto.» (Norberto de Araújo, in Sempre Fixe, 23/6/1927)

«De dia — uma «pochade» de Malhoa. De noite — um «carvão» de Gavarni, de Forain ou do nosso próprio Stuart Carvalhais — artistas do lápis, artistas das manchas sombrias, dos esboços confusos, de todo esse desenho admirável feito de impressões rápidas, sem linhas definidas, sem contornos marcados e onde existe e vive mais do que a forma, a alma dos seres...» (Armando Boaventura, in Diário de Noticias, 21/8/1930)

«O génio espontâneo e flagrante dos seus bonecos ofereceu-o ele sempre a Lisboa. Os gatos, as varinas, as lindas pernas de costureiras, as janelas, as quelhas e escadinhas, os arcos, os candeeiros, os garotos, os pobres de pedir dos nossos dias, Stuart os imortalizou e à sua geração os ofereceu com um sorriso modesto.» (Leitão de Barros, in Corvos)

«Com um lápis ou um pincel na mão faz verdadeiros prodígios — e quase se ofende se alguém lho diz. Despreocupado de toilette, farripas de cabelo ao vento, eterno boémio sempre com o ar de quem perdeu a noite.» (Luís O. Guimarães, in República,13/12/1960).

«A sua arte não tem período não tem escolas, não tem ascendentes nem descendentes, não tem data nem influências...» (Leitão de Barros, in Álbum)

«Mal empregado Stuart! Num meio sem carácter, com diminutíssima cultura, sem um estratificado social apreciador da beleza artística, não podia encontrar, já não digo galardão, mas incentivo condigno, o seu lápis tão singular, filho de uma genialidade nata.» (Aquilino Ribeiro, in Stuart e os seus Bonecos)

«Stuart é um dos mais fecundos artistas de todo o mundo e, provavelmente, nenhum poderá orgulhar-se de ter trabalhado para a imprensa durante tantos anos. Se essa mesma imprensa tivesse em Portugal, o mínimo de condições de que todo o artista necessita para criar, Stuart seria hoje o primeiro desenhador humorístico mundial.» (Armando Paulouro, in Stuart e os seus Bonecos)

«Viveu com os simples na sua intimidade e transmitiu-nos deles o melhor do seu carácter.» (Alfredo Marques, in Diário Popular, 22/9/1969)

«Stuart ironizou muitas classes e quase todas as profissões, mas o melhor da sua obra não está nas cenas domésticas dos pequenos burgueses, ou no comentário jocoso que o dia a dia lhe impunha para venda imediata, e impressão na primeira página. Nos trabalhos de sentido mais profundo, ressalta a fidelidade ao meio de que, infelizmente, não sabia libertar-se: bêbados, prostitutas, boémios, maltrapilhos e, aqui e além, envolvidos na mesma ternura, as crianças, os gatos e as figuras mais típicas dos nossos velhos bairros lisboetas.» (Rolando Moisão, in A Anatomia Artística nos desenhos de Stuart, 1965)

«Stuart não descia ao povo, como fazem muitos artistas: vivia o povo. As ruas que apareciam nos seus bonecos não resultavam de qualquer ficção; o desenhador percorria-as e nelas via as varinas, as prostitutas, os bêbados, os gatos...» (Pedro Raphael, in Vida Mundial, 26/3/1971)

«Um instinto genial.» (Abel Manta, in Vida Mundial, 26/3/1971)

«O inconfundível comentarista da vida lisboeta, que foi o desenhador Stuart Carvalhais, esse encarnou o homem da rua, simples e sagaz, observador e malicioso, de ânimo porventura amargo, de índole talvez dramático, a viver ao deus-dará, ora pitoresco, ora enternecido, que à mesa da taberna, como em qualquer outra assembleia de parceiros, se compraz dissertar sobre o que o Mundo lhe oferece de risonho ou triste ...» (Manuel Mendes, in Diário de Lisboa, 26/6/1978)

«Stuart não precisava de técnica, ele próprio era técnica. Enquanto que os outros precisam de instrumentos específicos como o lápis, pincel, tinta, para Stuart tudo servia, ele era criação. Não era um intelectual e não precisava de se inspirar nas obras e estilos dos grandes artistas estrangeiros, como aconteceu a todos os seus contemporâneos, porque para Stuart bastava a vida.» (Hein Semke, 1980)

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